...coágulo...

Havia uma marca na parede do quarto. Havia um buraco disforme. Havia um quadro em tempos. Um quadro com a fotografia de um passeio até ao mar pela primeira vez que haviam visto o mar juntos.
A parede da velha casa estava encardida de tanto tabaco que ele fumava nos primeiros anos da mudança, nunca se tinha habituado a deixar de pôr os pés na areia da praia da Ericeira. Aquele gelo fazia-lhe correr o sangue nas veias à medida que se enterrava na água gelada já sem muito sal, mais doce que as muitas águas onde fora marinheiro. Daí que ainda hoje o chamassem marinheiro de água doce. E ele não gostava. Tirava o cigarro da boca e chamava-os, filhos da puta. E ela dizia, dizes isso porque não tivemos filhos.
Os vizinhos diziam que ela era seca. Velha. Doente. Esquecia-se que não se põe a roupa suja no frigorífico. E às vezes pensava que a casa ficava para a direcção oposta e andava até descobrir que os sentidos lhe começavam a falhar e a memória era coisa que pertencia à juventude. Como o corpo bonito, os piropos e os vestidos pelo joelho. Ainda tinha as bonecas de pano que um dia jurara dar aos netos.
Nunca teve filhos.
O médico dizia que era estéril e ela pensava que o marido ficaria mais descansado assim. O problema era dela. E ele sentia-se aliviado. Nunca soubera cuidar de seres mais pequenos que ele e nunca quisera levar ninguém com ele no barco.
Nunca quisera mostrar o mar a mais ninguém, pensava que o seu destino era viver só até morrer. Mas ela sorria-lhe quando vinha comprar o peixe fresco para o almoço de domingo em casa dos padrinhos. Eram novos e ele achou melhor casar-se. Na praia. Com o mar a abençoar.
Assim foi.
Não houve lua. Naquela noite. Nem de mel.
Havia o escuro dos gestos dela que se chegava a ele mais próxima de ser mulher que ele de se tornar um homem. Não havia sangue da consumação. Não havia ninguém a ser gerado. Ela sentia-se vazia. Falava com as bonecas, vestia-lhes os vestidos feitos com velhos remendos de trapos e penteava-lhes os cabelos.
Ele chamava-a doida e ela sorria. Desconsertante. Fechava o sorriso e olhava em frente sem fixar nenhum ponto. O horizonte era o seu ponto.
Não sonhava.
Dormia de olhos abertos e ouvidos embalados pelo ronco do dormitar do marido. Rodava o aro dourado no dedo anelar. E rodava. E rodava. Até perder os sentidos e afogar-se numa cama de amor não sangrado. De amor que nunca deu fruto, senão o da obrigação cumprida.
Apaga-se a luz.
Desce o caixão.
A marca na parede continua no mesmo sítio.

6 Comments:
uuuu hmmm crias estórias
Essa mancha fez-me lembrar a mancha da "tu disseste" dos Mão Morta
*take care
Ola*
História cria e imaginada com realidades bem nossas conhecidas..realidades em que todas essas efemeridades do mundo se revelam sem dó!
Gostei muito!
Continua a escrever..aqui vou estar eu o teu fiel leitor :p
Beijinho*
ai que aquela mulher fez-me lembrar um certo lobo que se perde e essas coisas.
Não vale a pena dizer que gostei e que continues a escrever, apenas me basta dizer que o lobo vai gostar sempre de amoras morenas.
PS: tens mm de me avisar qd escreves, sorry, mas sabes como é a minha cabeça ;)
wowww...este texto deixou-me mm surpresa...apesar de toda aquela crise, gostei mto de ler este texto...esta mto bom amiga!!
beijokinhas e foi bom ter-te ca ontem/hoje lol
lindo! brutal! pq às vezes a vida é mesmo assim e toca imensamente mais q palavras de ternura. gostei. muito.
gosto desta tua nova fase :)
beijinho enorme*
Muito triste! história de dádiva, de dor, de negação.
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